sábado, 7 de março de 2009

Qual é o valor de uma excumunhão?

O Brasil é um Estado laico, mesmo que religiosos não gostem ou não aceitem a divisão entre fé e política. Isso significa que há separação total de Igreja e Estado, e as decisões de um ou de outro são soberanas dentro de seu campo de atuação. Só que, por sua natureza de constituição da sociedade e regulação de seus conflitos, a atuação do Estado perpassa todas as nossas ações e vida: todos precisamos seguir determinadas regras para não sermos punidos e retirados do convívio social.

A fé, por outro lado, é uma ESCOLHA. Sabemos que, para haver uma sociedade democrática, onde todos têm o direito de se expressarem, inclusive religiosamente, é necessária uma grande dose de respeito às diferenças. Por isso, respeitamos aquele amigo que é pastor, e ele nos respeita no nosso despojamento de fé.

Só que, mesmo que eu não tenha fé, não ignoro que a maior parte das pessoas participa de alguma comunidade religiosa. Seja no coral de uma igreja de seu bairro, seja uma campanha para doação de roupas e alimentos ou grupo de jovens.

E aí entra o problema da excomunhão dos médicos e da garota de 9 anos, violentada pelo padrasto em Pernambuco. A igreja, representada em seu membro da Arquidiocese de Olinda e Recife, entende que aborto é muito mais sério que estupro, pela lógica que o aborto é um assassinato; o estupro, não. Deste modo, o "estupra, mas não mata" pode ser até cristão!

Pecador, te excomungo!
Excomunhão significa bloquear o acesso dos religiosos excomungados à participação dos sacramentos da religião, como casamento, crisma e eucaristia. Embora possam participar das missas, há o simbolismo mais forte: eles NÃO PODERÃO ENTRAR NO REINO DOS CÉUS!!!

Quer dizer: a preocupação dos médicos em salvar a menina de 9 anos da morte é o pecado capital?

1. Como ela teria condições de amamentar seus filhos nessa idade (isso se não morresse)?
2. Como ela os criaria?
3. Qual é a possibilidade dela se tornar uma mãe presente, construir uma família saudável, ser a mãe "porto-seguro"?
4. Como ela os sustentaria?
5. Como ela frequentaria a escola?
6. Que futuro ela teria? E os filhos?

Mantenham os dogmas em seu lugar
Os médicos atuaram amparados em fatos – o aparelho reprodutório imaturo, a violência sofrida e o amparo na legislação –, confiantes no aprenderam na escola de medicina. Eles cuidaram de uma vida que poderiam garantir. No portal G1:
“De acordo com a diretora do Cisam (médica excomungada, Fátima Maia), a criança poderia ter ruptura de útero, hemorragia e bebês prematuros, além de risco de diabete, hipertensão, eclâmpsia e de se tornar estéril.”

Dizer não ao aborto é fazer com que a criança arque com as consequências de um ato não-consentido – os sintomas descritos acima pela Dra. Fátima e a possibilidade de morrer. O Arcebispo nunca teve filhos. A argumentação da igreja é insensível ao drama e a dor da menina, e abominação que representa este posicionamento explica porque a igreja católica perde cada vez mais fiéis. Eles estão distantes da realidade, ligados a dogmas que só têm compromisso com a igreja, não com o amparo da dura existência humana.

Não é o ser humano que é defendido por eles, mas a instituição. Como confiar numa igreja assim? É lastimável que a igreja católica seja tão contundente com interesses corporativos e tão pouco zelosa com o que deveria defender, acima de tudo: a dignidade humana.

Excomungar é libertar
A excomunhão não tem grandes resultados práticos. Os excomungados que têm fé continuaram a carregá-la; os que não têm acreditarão ainda menos numa igreja. Imprimiu dignidade à causa a defesa que o Presidente Lula fez dos médicos.

Quem se importa em ser excomungado por um ato como esse? Os médicos que operaram a menina têm a lei (do Estado laico) do seu lado e apoio de colegas de profissão e especialistas. Eles não se arrependem por terem feito seu trabalho. Ainda bem - melhor para nós e para a humanidade civilizada.