Assista se você: gosta de muita pancadaria, ação frenética e criaturas mitológicas (nem sempre existentes na mitologia original) em CG extraordinária.
Não assista se você: não gosta de filmes comerciais de Holywood por princípio e tem ânsia de vômito com seus clichês.
Dica: ignore a versão em 3d e vá a um cinema com a maior tela que você puder encontrar.
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Vi, ontem, Fúria de Titãs em 3d no Cinemark do Shopping Santa Cruz. A essa altura, todos devem saber que se trata da história de Perseu, o semideus que fundou Micenas e matou seu avô Acrísio sem querer.
O filme é um remake de Clash of the Titans, de 1981; porém, a história foi bem mudada - o Perseu de 2010 é como aquele marine libertador dos Naavi de Avatar e, aliás, é o mesmo ator, o que torna inevitável relembrá-lo, tão parecidas que são suas expressões faciais em ambos os filmes. Vamos ao atual.
Sob a égide de Zeus
Perseu é um cara simprão que cresceu junto a uma família de pescadores - eles o adotaram após encontrá-lo bebê junto da mãe defunta, dentro de uma urna à deriva no mar. Só que o cara que gosta das coisas simples da vida é também o filho ilegítimo do rei Acrísio, que atirara sua rainha no mar na mesma urna em que os pescadores a encontraram.
O rei a condenara à morte, após flagrá-la nas pós-liminares com Zeus disfarçado de Acrísio, o que também significa, obviamente, que Perseu é o pimpão de Zeus detentor da égide :). Por ser um semi-deus, Perseu sobreviveu à navegação in very low levels de oxigênio; se eu me lembro bem, nasceu enquanto a mãe estava na urna.
Numa das primeiras cenas, guerreiros de Argos derrubam uma estátua de Zeus de um penhasco à beira do mar, em desafio-confronto para com o Olimpos. Os humanos desejavam libertar-se da tirania dos deuses e deixar de adorá-los com esse gesto; os deuses, por outro lado, precisavam de sua adoração para viverem (para sempre, claro).
Neste mesmo momento, o barco de Perseu e família passeava ao lado do penhasco e surge o deus Hades, que mata diversos guerreiros como castigo pela insolência. De retorno para o mármore (em direção às profundezas do oceano), arrebenta o barco em sua passagem e assassina a família postiça de Perseu.
Este, então, fica furioso e torna-se o desafiador número um dos deuses - o que já era uma continuação do tipo de atitude que seu padrasto sugeria em relação a eles quando vivo: dizia "alguém vai ter que confrontá-los", após um período de pescas magras (causadas, inferimos, por Poseidon).
Depois de resgatado pelo reino de Argos, após o ataque de Hades a seu barco, Perseu gradativamente torna-se o THE ONE da "humanidade" (Argos): de vingador, ele é promovido a libertador da raça humana da tirania dos deuses. Similar (idêntico) ao que o mesmo ator se torna em Avatar. Melhor ainda, e mais próximo do ideal: ele é um semi-deus, filho de um deus, salvador da humanidade, desafiador da autoridade estabelecida e que será adorado depois de seu feito. A América não poderia ter melhor filho.
Daí, Perseu percorre sua jornada lutando contra monstros mitológicos, como a Medusa e escorpiões gigantes. Infelizmente, foi cortada sua paixão por Andrômeda, filha do rei de Argos, que deveria ser sacrificada por sua mãe sempre compará-la às deusas - na narrativa original, quem a condena é Poseidon; em Fúria dos Titãs 2010, é Hades que traz o monstro Kraken das profundezas do Mármore para se banquetear com ela.
Senhor dos Titãs com 3d fajuto
Como quase sempre acontece com filmes deste porte de financiamento (US$ 70 milhões), os diálogos são muito dáticos e tudo é sempre evidente; apenas a Zeus (Liam Neeson) e a Hades (Ralph Fiennes) é concedida a dádiva da ambiguidade de linguagem e comportamento. As atuações, também excluídas estes dois aí e, em menor proporção, o próprio Perseu (Sam Worthington), são bem regulares no mal sentido.
Mesmo assim, o filme possui imensas qualidades técnicas: a computação gráfica é fotorrealista, servindo perfeitamente aos propósitos das frenéticas cenas de batalha; a trilha sonora, as vezes genérica, consegue manter a tensão das cenas mais agitadas, com um cello tocado nervosamente no estilo Apocalyptica.
A forma como os deuses, do Olimpo, veem a Terra, é muito legal - eles ficam em pé de um mapa-realidade que exibe nuvens, relevo e a humanidade.
O filme, em si, é pancadaria pra todo lado, em altíssima velocidade, e as cenas de combate são muito boas, embora sofram por alguns clichês, que também permeiam quase toda a produção. Por exemplo, a cena final Pégaso voando em direção à tela - quantas vezes você já viu algo ou o herói voando em direção à tela? Umas centenas? A cena é vexaminosa de tão batida. Há também tomadas panorâmicas de voo e trechos mais calmos da trilha sonora que lembram muito Senhor dos Anéis, uma referência para filmes épicos. O terrível é reviver algumas de suas fórmulas já levemente tediosas por natureza piorarem em terceiros.
E como suspeitei, o filme é um 3d fajuto, pois foi filmado em 2d e adaptado para cinemas 3d. Nas cenas iniciais, isso não é evidente; com seu decorrer, o efeito chega a ficar uma merda, porque os personagens parecem ter tido sua imagem recortada e colada por cima, e ainda há sobras (!!!) para fora do corte. Uma coisa medonha, pavorosa de porca.
Conclusão
Assisti um pouco à primeira versão de Clash of the Titans, e me pareceu que o filme antigo é mais fiel à relação dos gregos com seus deuses, embora tenha efeitos especiais pífios e, segundo este texto, já datados mesmo à época de seu lançamento. Aliás, o texto indicado é uma resenha excelente e equilibrada sobre Fúria de Titãs, que compara o atual com original e pesa méritos e deméritos dos dois.Eu não tenho, em princípio, nada contra filmes com orçamentos milionários. Mas acho que, se a Warner Brothers não considerasse seu público um bando de jumentos, que só quer pancadaria numa escala épica + falas mais ou menos imbecis, teríamos um filme um bilhão de vezes melhor. O negócio é ignorar tanto esse defeito quanto a baboseira do libertador americano e grudar no frenesi das batalhas.
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Questão interessanteDo pouco que sei sobre mitologia grega, parece-me que Zeus oscila entre ser onisciente e não o ser - por poder ser enganado e não ser enganado ao mesmo tempo (a história de Prometeu, na Teogonia, é um bom exemplo disso). Em Fúria de Titãs, Zeus não é onisciente, pois tem de descer do Olimpo para conferir seu filho ainda vivo e pôde ser enganado por seu irmão. Talvez a onisciência seja apenas atributo de Apolo. A verificar.