quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fúria de Titãs (ou o filho da América): resenha


Assista se você: gosta de muita pancadaria, ação frenética e criaturas mitológicas (nem sempre existentes na mitologia original) em CG extraordinária. 
Não assista se você: não gosta de filmes comerciais de Holywood por princípio e tem ânsia de vômito com seus clichês.

Dica: ignore a versão em 3d e vá a um cinema com a maior tela que você puder encontrar.
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Vi, ontem, Fúria de Titãs em 3d no Cinemark do Shopping Santa Cruz. A essa altura, todos devem saber que se trata da história de Perseu, o semideus que fundou Micenas e matou seu avô Acrísio sem querer.


O filme é um remake de Clash of the Titans, de 1981; porém, a história foi bem mudada - o Perseu de 2010 é como aquele marine libertador dos Naavi de Avatar e, aliás, é o mesmo ator, o que torna inevitável relembrá-lo, tão parecidas que são suas expressões faciais em ambos os filmes. Vamos ao atual.


Sob a égide de Zeus
Perseu é um cara simprão que cresceu junto a uma família de pescadores - eles o adotaram após encontrá-lo bebê junto da mãe defunta, dentro de uma urna à deriva no mar. Só que o cara que gosta das coisas simples da vida é também o filho ilegítimo do rei Acrísio, que atirara sua rainha no mar na mesma urna em que os pescadores a encontraram.


O rei a condenara à morte, após flagrá-la nas pós-liminares com Zeus disfarçado de Acrísio, o que também significa, obviamente, que Perseu é o pimpão de Zeus detentor da égide :). Por ser um semi-deus, Perseu sobreviveu à navegação in very low levels de oxigênio; se eu me lembro bem, nasceu enquanto a mãe estava na urna.


Numa das primeiras cenas, guerreiros de Argos derrubam uma estátua de Zeus de um penhasco à beira do mar, em desafio-confronto para com o Olimpos. Os humanos desejavam libertar-se da tirania dos deuses e deixar de adorá-los com esse gesto; os deuses, por outro lado, precisavam de sua adoração para viverem (para sempre, claro). 


Neste mesmo momento, o barco de Perseu e família passeava ao lado do penhasco e surge o deus Hades, que mata diversos guerreiros como castigo pela insolência. De retorno para o mármore (em direção às profundezas do oceano), arrebenta o barco em sua passagem e assassina a família postiça de Perseu.


Este, então, fica furioso e torna-se o desafiador número um dos deuses - o que já era uma continuação do tipo de atitude que seu padrasto sugeria em relação a eles quando vivo: dizia "alguém vai ter que confrontá-los", após um período de pescas magras (causadas, inferimos, por Poseidon).


Depois de resgatado pelo reino de Argos, após o ataque de Hades a seu barco, Perseu gradativamente torna-se o THE ONE da "humanidade" (Argos): de vingador, ele é promovido a libertador da raça humana da tirania dos deuses. Similar (idêntico) ao que o mesmo ator se torna em Avatar. Melhor ainda, e mais próximo do ideal: ele é um semi-deus, filho de um deus, salvador da humanidade, desafiador da autoridade estabelecida e que será adorado depois de seu feito. A América não poderia ter melhor filho.


Daí, Perseu percorre sua jornada lutando contra monstros mitológicos, como a Medusa e escorpiões gigantes. Infelizmente, foi cortada sua paixão por Andrômeda, filha do rei de Argos, que deveria ser sacrificada por sua mãe sempre compará-la às deusas - na narrativa original, quem a condena é Poseidon; em Fúria dos Titãs 2010, é Hades que traz o monstro Kraken das profundezas do Mármore para se banquetear com ela.


Senhor dos Titãs com 3d fajuto
Como quase sempre acontece com filmes deste porte de financiamento (US$ 70 milhões), os diálogos são muito dáticos e tudo é sempre evidente; apenas a Zeus (Liam Neeson) e a Hades (Ralph Fiennes) é concedida a dádiva da ambiguidade de linguagem e comportamento. As atuações, também excluídas estes dois aí e, em menor proporção, o próprio Perseu (Sam Worthington), são bem regulares no mal sentido.

Mesmo assim, o filme possui imensas qualidades técnicas: a computação gráfica é fotorrealista, servindo perfeitamente aos propósitos das frenéticas cenas de batalha; a trilha sonora, as vezes genérica, consegue manter a tensão das cenas mais agitadas, com um cello tocado nervosamente no estilo Apocalyptica
A forma como os deuses, do Olimpo, veem a Terra, é muito legal - eles ficam em pé de um mapa-realidade que exibe nuvens, relevo e a humanidade. 

O filme, em si, é pancadaria pra todo lado, em altíssima velocidade, e as cenas de combate são muito boas, embora sofram por alguns clichês, que também permeiam quase toda a produção. Por exemplo, a cena final Pégaso voando em direção à tela - quantas vezes você já viu algo ou o herói voando em direção à tela? Umas centenas?  A cena é vexaminosa de tão batida. Há também tomadas panorâmicas de voo e trechos mais calmos da trilha sonora que lembram muito Senhor dos Anéis, uma referência para filmes épicos. O terrível é reviver algumas de suas fórmulas já levemente tediosas por natureza piorarem em terceiros.


E como suspeitei, o filme é um 3d fajuto, pois foi filmado em 2d e adaptado para cinemas 3d. Nas cenas iniciais, isso não é evidente; com seu decorrer, o efeito chega a ficar uma merda, porque os personagens parecem ter tido sua imagem recortada e colada por cima, e ainda há sobras (!!!) para fora do corte. Uma coisa medonha, pavorosa de porca.



Conclusão
Assisti um pouco à primeira versão de Clash of the Titans, e me pareceu que o filme antigo é mais fiel à relação dos gregos com seus deuses, embora tenha efeitos especiais pífios e, segundo este texto, já datados mesmo à época de seu lançamento. Aliás, o texto indicado é uma resenha excelente e equilibrada sobre Fúria de Titãs, que compara o atual com original e pesa méritos e deméritos dos dois.


Eu não tenho, em princípio, nada contra filmes com orçamentos milionários. Mas acho que, se a Warner Brothers não considerasse seu público um bando de jumentos, que só quer pancadaria numa escala épica + falas mais ou menos imbecis, teríamos um filme um bilhão de vezes melhor. O negócio é ignorar tanto esse defeito quanto a baboseira do libertador americano e grudar no frenesi das batalhas.
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Questão interessante
Do pouco que sei sobre mitologia grega, parece-me que Zeus oscila entre ser onisciente e não o ser - por poder ser enganado e não ser enganado ao mesmo tempo (a história de Prometeu, na Teogonia, é um bom exemplo disso). Em Fúria de Titãs, Zeus não é onisciente, pois tem de descer do Olimpo para conferir seu filho ainda vivo e pôde ser enganado por seu irmão. Talvez a onisciência seja apenas atributo de Apolo. A verificar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Internet is for porn!

É velho, mas é bom relembrar: "grab your dick and double click for porn, porn, porn!"


domingo, 6 de junho de 2010

OBAMA VS. AL CAPONE - traduzido (Newsweek desta semana)

O Celso R. Barros do blog Na Prática a Teoria é Outra (NPTO)postou sobre a capa da Newsweek desta semana. Eu fiz uma tradução do artigo de 29 de maio, que defende a política externa de Obama em detrimento da de Bush Jr. Não sei se está precisa, por isso, aceito sugestões. O original, em inglês, foi escrito por Fareed Zakaria.


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OBAMA VS. AL CAPONE

A política externa de quem faz mais sentido?

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas a recente foto do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan e do presidente do Brasil Luis Inacio Lula da Silva abraçando o iraniano Mahmoud Ahmadinejad incitou dezenas de milhares de palavras como comentário. Raramente uma única fotografia irritou tantas pessoas.

O alvo das maiores críticas, no entando, foi um homem que não estava nem na imagem. “O crédito total deste fracasso vai para a administração Obama”, declarou o The Wall Street Journal. O colunista conservador Charles Krauthammer foi menos contido. Escrevendo no Washington Post, ele trovejou: "aquela imagem – um desafiador, triunfante, 'toma-isso-Tio-Sam'- é um veredito acachapante sobre a política externa de Obama. Ela demonstra como poderes em ascensão, aliados tradicionais dos EUA, ao assistirem esta administração em ação, decidiram que não há custo no alinhamento com inimigos dos EUA, e que não há lucro em alinharem-se com um presidente norte-americano dado a desculpas e apaziguamento".

Essa é agora a linha de ataque demarcada contra a política externa de Barack Obama. Ele é muito gentil, e outros países estão tirando vantagem dele. Primeiro foram os russos, chineses e iranianos. Agora, mesmo os brasileiros e turcos estão aderindo. “Não há nada há temer em Obama, e tudo a ganhar insinuando-se para os adversários em ascensão da América”, escreve Krauthammer.

Algo disso reflete um padrão familiar de crítica a um presidente americano. Coisas ruins acontecem no mundo, e nós dizemos à Casa Branca, “Como vocês puderam deixar isso acontecer?” Quanto pior o derramamento de óleo fica, mais temos certeza que Obama deveria estar fazendo algo para interrompê-lo e tirar aquelas imagens das telas das televisões.

Os críticos estão nervosos, por exemplo, que Obama não tenha feito a Revolução Verde triunfar no Irã. Mas o regime iraniano é tanto repressivo como pujante (rico), e usa armas e dinheiro para se manter no poder. Ele também tem algum apoio significante entre os pobres, os idosos e entre a população rural. Isso não é um regime como o da Coréia do Norte, que sobrevive somente amparado em sua brutalidade. Nem é isolado como Pyongyang. Brasil e Turquia provavelmente não estão solitários em sua abertura para com o Irã. Os 118 países que compõem o bloco não-alinhado passam resoluções de apoio à Teerã rotineiramente, na batalha por seu programa nuclear.  Um discurso mais beligerante de Obama não teria feito o regime de Teerã colapsar.

Seus oponentes conservadores acreditam que Obama precisa se tornar mais duro, pressionar estes outros países e mostrar a eles que America significa negócio. Há apenas um problema: aquela política já foi tentada extensivamente e falhou de forma dolorosa. A administração de George W. Bush conscientemente definiu sua política externa como dura e agressiva. “É melhor ser temido que amado”, Dick Cheney dizia, citando Maquiavel. Donald Rumsfeld escolheu uma fonte menos refinada, frequentemente mencionando a frase de Al Capone: “Você vai mais longe com uma palavra gentil e uma arma que com uma palavra gentil.”

Esquecemos os resultados desse experimento com machismo como política externa? Na Europa, os mais antigos aliados da América se viraram contra os EUA. Outros governos criticaram publicamente Washington política após política e recusaram a apoiar seus esforços. Em 2007, largas maiorias de país após país, até mesmo em lugares historicamente pró-americanos como a Bretanha, se viraram contra a America.
Turquia, como acontece, demonstrou-se um estudo de caso sobre como não lidar como um aliado. A administração Bush tratou o país com a mistura usual de soberba e arrogância, ameaçando-o com horríveis conseqüências caso não permitisse que as tropas dos EUA atacassem o Iraque a partir de seu território. Aparentemente sem consciência de que a Turquia tornara-se uma democracia em consolidação e que 95% do público turco se opunha a uma guerra com o Iraque, a administração Bush foi totalmente pega de surpresa quando o Parlamento turco votou pelo não, suspendendo os planos de guerra dos EUA.

Há uma tendência maior que os críticos de Obama “deixaram passar” completamente. Países como Turquia e Brasil (e China e Índia) cresceram em poder econômico durante as duas últimas décadas. Em 1995, os países emergentes compunham algo como um terço da economia global. Neste ano, eles serão a metade – e aumentando. Eles aguentaram a crise econômica muito melhor que o mundo ocidental. São politicamente estáveis, ricos, e de uma auto-confiança crescente, determinados a exercer um papel maior no palco do mundo. Sob estas circunstâncias, a idéia de que Obama só precisa arremessar o peso dos EUA por aí é tola e perigosa. Brasil e Turquia não se tornarão mais cooperativos se Washington ameaçá-los mais. A tarefa dos EUA é encontrar maneiras de formar parcerias e convencer os poderes mundiais emergentes de que eles tem interesse num mundo mais estável e decente. E Al Capone não é bem um modelo para fazer com que isso aconteça.