domingo, 6 de junho de 2010

OBAMA VS. AL CAPONE - traduzido (Newsweek desta semana)

O Celso R. Barros do blog Na Prática a Teoria é Outra (NPTO)postou sobre a capa da Newsweek desta semana. Eu fiz uma tradução do artigo de 29 de maio, que defende a política externa de Obama em detrimento da de Bush Jr. Não sei se está precisa, por isso, aceito sugestões. O original, em inglês, foi escrito por Fareed Zakaria.


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OBAMA VS. AL CAPONE

A política externa de quem faz mais sentido?

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas a recente foto do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan e do presidente do Brasil Luis Inacio Lula da Silva abraçando o iraniano Mahmoud Ahmadinejad incitou dezenas de milhares de palavras como comentário. Raramente uma única fotografia irritou tantas pessoas.

O alvo das maiores críticas, no entando, foi um homem que não estava nem na imagem. “O crédito total deste fracasso vai para a administração Obama”, declarou o The Wall Street Journal. O colunista conservador Charles Krauthammer foi menos contido. Escrevendo no Washington Post, ele trovejou: "aquela imagem – um desafiador, triunfante, 'toma-isso-Tio-Sam'- é um veredito acachapante sobre a política externa de Obama. Ela demonstra como poderes em ascensão, aliados tradicionais dos EUA, ao assistirem esta administração em ação, decidiram que não há custo no alinhamento com inimigos dos EUA, e que não há lucro em alinharem-se com um presidente norte-americano dado a desculpas e apaziguamento".

Essa é agora a linha de ataque demarcada contra a política externa de Barack Obama. Ele é muito gentil, e outros países estão tirando vantagem dele. Primeiro foram os russos, chineses e iranianos. Agora, mesmo os brasileiros e turcos estão aderindo. “Não há nada há temer em Obama, e tudo a ganhar insinuando-se para os adversários em ascensão da América”, escreve Krauthammer.

Algo disso reflete um padrão familiar de crítica a um presidente americano. Coisas ruins acontecem no mundo, e nós dizemos à Casa Branca, “Como vocês puderam deixar isso acontecer?” Quanto pior o derramamento de óleo fica, mais temos certeza que Obama deveria estar fazendo algo para interrompê-lo e tirar aquelas imagens das telas das televisões.

Os críticos estão nervosos, por exemplo, que Obama não tenha feito a Revolução Verde triunfar no Irã. Mas o regime iraniano é tanto repressivo como pujante (rico), e usa armas e dinheiro para se manter no poder. Ele também tem algum apoio significante entre os pobres, os idosos e entre a população rural. Isso não é um regime como o da Coréia do Norte, que sobrevive somente amparado em sua brutalidade. Nem é isolado como Pyongyang. Brasil e Turquia provavelmente não estão solitários em sua abertura para com o Irã. Os 118 países que compõem o bloco não-alinhado passam resoluções de apoio à Teerã rotineiramente, na batalha por seu programa nuclear.  Um discurso mais beligerante de Obama não teria feito o regime de Teerã colapsar.

Seus oponentes conservadores acreditam que Obama precisa se tornar mais duro, pressionar estes outros países e mostrar a eles que America significa negócio. Há apenas um problema: aquela política já foi tentada extensivamente e falhou de forma dolorosa. A administração de George W. Bush conscientemente definiu sua política externa como dura e agressiva. “É melhor ser temido que amado”, Dick Cheney dizia, citando Maquiavel. Donald Rumsfeld escolheu uma fonte menos refinada, frequentemente mencionando a frase de Al Capone: “Você vai mais longe com uma palavra gentil e uma arma que com uma palavra gentil.”

Esquecemos os resultados desse experimento com machismo como política externa? Na Europa, os mais antigos aliados da América se viraram contra os EUA. Outros governos criticaram publicamente Washington política após política e recusaram a apoiar seus esforços. Em 2007, largas maiorias de país após país, até mesmo em lugares historicamente pró-americanos como a Bretanha, se viraram contra a America.
Turquia, como acontece, demonstrou-se um estudo de caso sobre como não lidar como um aliado. A administração Bush tratou o país com a mistura usual de soberba e arrogância, ameaçando-o com horríveis conseqüências caso não permitisse que as tropas dos EUA atacassem o Iraque a partir de seu território. Aparentemente sem consciência de que a Turquia tornara-se uma democracia em consolidação e que 95% do público turco se opunha a uma guerra com o Iraque, a administração Bush foi totalmente pega de surpresa quando o Parlamento turco votou pelo não, suspendendo os planos de guerra dos EUA.

Há uma tendência maior que os críticos de Obama “deixaram passar” completamente. Países como Turquia e Brasil (e China e Índia) cresceram em poder econômico durante as duas últimas décadas. Em 1995, os países emergentes compunham algo como um terço da economia global. Neste ano, eles serão a metade – e aumentando. Eles aguentaram a crise econômica muito melhor que o mundo ocidental. São politicamente estáveis, ricos, e de uma auto-confiança crescente, determinados a exercer um papel maior no palco do mundo. Sob estas circunstâncias, a idéia de que Obama só precisa arremessar o peso dos EUA por aí é tola e perigosa. Brasil e Turquia não se tornarão mais cooperativos se Washington ameaçá-los mais. A tarefa dos EUA é encontrar maneiras de formar parcerias e convencer os poderes mundiais emergentes de que eles tem interesse num mundo mais estável e decente. E Al Capone não é bem um modelo para fazer com que isso aconteça.

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