“Parece-me que Hesíodo e Homero, quanto à idade, foram mais velhos do que eu em quatrocentos anos, e não mais. Eles são os que compuseram teogonia para os gregos, deram os nomes aos Deuses, distinguiram-lhes honras e artes, e indicaram suas figuras.”
Heródoto II, 53. Da contracapa de Tegonia, tradução de Jaa Torrano.
Há 10 anos guerreiam aqueus e troianos quando do início da Ilíada. A longa e extenuante batalha está em seus momentos decisivos, que precedem a queda da cidade de Tróia (Ílion, em grego).
LEIA EM VOZ ALTA:
“A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles,
O irado desvario, que aos Aqueus tantas penas
trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades
de valentes, de heróis, espólio para os cães
pasto de aves rapaces: fez-se a lei de Zeus;
desde que por primeiro a discórdia apartou
o Atreide, chefe dos homens, e o divino Aquiles.”
(começo da Ilíada de Haroldo de Campos)
Em nenhum momento, o poema narra a tomada da pólis troiana pelos argivos vencedores; o canto final chega a descrever o funeral de Heitor, o melhor filho de Ílion - prenúncio do fim da cidade.
Este encerramento do poema antes da invasão leva a duas constatações: a morte gloriosa de Aquiles, que concretiza a profecia de sua mãe Tétis sobre uma vida rápida e eternizada na batalha sangrenta entre os homens, não está presente. É vastamente conhecida a versão da flecha no "tendão de Aquiles", disparada por Páris Alexandre (um honorável covarde na Ilíada); na Ilíada, o que se tem é a certeza de que Aquiles morrerá durante a conquista de Tróia, mas a morte não é narrada.
A segunda constatação, também consequência da ausência da invasão: não há cavalo de Tróia na Ilíada.
Aquiles de pés velozes
Aquiles, o herói maior da estória – viril, dominador, um super-homem no sentido nietzscheano da expressão – havia recebido como espólio de outra guerra uma garota como escrava, Briseida. O rei dos reis, Agamémnon, tomou-a para si, e desde então Aquiles se negara a combater em prol dos Argivos, Dânaos e Aqueus (Aquiles é rei dos Mirmidões, aliados de Agamémnon e Menelau, irmãos-reis). É importante saber que o que Aquiles sente por Briseida é afeição, em oposição ao puro desejo carnal de Agamemnon, o que pode sugerir que um tem mais valor humano que o outro por sentir emoções mais nobres.
Pela maior parte da Ilíada assim fica Aquiles, na sua cabana na praia, sem participar da guerra, enquanto sangue é derramado dos dois lados do confronto . E quando escrevo sangue, não é por força de expressão: a Ilíada é um livro de guerra, e esta é sanguinária e mortal numa miríade de maneiras.
Morte de Pândaro (p.113):
“Assim falando, atirou a lança. E Atena guiou-a até o nariz,
entre os olhos de Pândaro. Penetrou através dos alvos dentes.
O bronze renitente cortou a língua pela raiz e a ponta
da lança saiu por baixo, pela base do queixo.”
Morte de Dólon, espião dos troianos (p. 213):
“Falou; e Dólon estava prestes a tocar-lhe no queixo
com a mão firme para suplicar, mas no meio do pescoço
com a espada lhe deferiu Diomedes um golpe e cortou os tendões;
e a cabeça de Dólon proferia ainda sons ao bater na terra.”
Por mais que amigos de Aquiles, companheiros seus de batalha, os quais ele respeitava, fossem intervir em nome de Agamémnon, ele não arredava o pé. Mesmo quando o rei dos reis oferece devolver Briseida e ainda pagar uma imensa indenização em ouro e bois, Aquiles não toma partido dos argivos, tamanho é seu orgulho ferido – proporcional à importância do herói na definição dos rumos da narrativa. Sua participação é fundamental para os povos sob o comando de Agamemnon e seu irmão Menelau tomarem a cidade de Tróia.
“There’s no pacts between wolves and lambs”
Aquiles (Brad Pitt) em Troy
“Tal como entre leões e homens não há fiéis juramentos,
Nem entre lobos e ovelhas existe concordância,
Mas sempre estão mal uns com os outros –
Assim entre ti e mim não há amor, nem para ambos
haverá juramentos, até que um ou outro tombe morto,
para fartar com seu sangue Ares, portador do escudo de touro.”
(trecho da Ilíada de Frederico Lourenço)
Este é Aquiles gritando com Heitor, no momento em que Heitor propõe a não-profanação de seus corpos, não importa quem ganhe a batalha. Aquiles estava muito chateado pela morte de Pátroclo, escudeiro e companheiro de Aquiles – “o amigo que ele de longe mais amava”.
Pátroclo entrara no combate a mando de Aquiles, com as armas do próprio. Aquiles só decide entrar na guerra no décimo oitavo canto, de XIV totais, após a morte de Pátroclo.
Heitor, além de príncipe de Tróia, é um modelo de nobreza atemporal. Ele vive cenas domésticas enternecedoras para os padrões de virilidade da Ilíada e é mostrado como um marido fiel e pai dedicado. Mais: ele tem apenas uma esposa, enquanto homens poderosos têm diversas esposas, como seu pai.
Esta existência exemplar será encerrada pelo maior dos heróis. A entrada de Aquiles no conflito define a estória como a conhecemos. O herói se engaja no combate num momento de desesperança para os invasores, que parecem estar diante de uma cidade inabalável (Tróia) e lutando contra um defensor invencível (Heitor).
Com armas novas, feitas pelo deus Hefesto, deus coxo artesão – as antigas tinha sido apropriadas por Heitor, na ocasião da morte de Pátroclo - Aquiles entra no combate que eternizará seu nome por derrotar o maior dos troianos. Não é pouco. Durante a Ilíada inteira, percebe-se que ninguém é páreo para Heitor e, portanto, só Aquiles conseguiria mandá-lo pro Hades.
Mesmo nobre e valoroso, Heitor é dragado e despedaçado pela fúria caprichosa de Aquiles - o que pode sugerir, embora vagamente, que tipo de homem era um vencedor na Grécia Antiga. Talvez a Ilíada inteira seja uma moldura para este embate,o maior dos séculos.
Após a matá-lo, Aquiles arrasta o corpo de Heitor preso ao carro de cavalos, que só não sofre danos porque esta protegido pelos deuses. Um trecho de um discurso do deus Apolo ilustra didaticamente este perfil sanguinário:
"Mas é ao feroz Aquiles, ó deuses, que quereis favorecer:
ele a quem faltam pensamentos sensatos e um espírito
moldável no peito. Como um leão, só quer saber de selvagerias:
um leão que encorajado pela sua estatura e força e altivo coração se atira aos rebanhos dos homens, para arrebatar a refeição"
O deus Apolo criticava o favorecimento de Aquiles por Zeus na luta contra Heitor, e a profanação do corpo do oponente. Ainda assim, o cruel Aquiles cede ao pai de Heitor, o rei Príamo, quando ele o procura, ensandecido pela morte do filho (o velho chegara a passar esterco no corpo).
Aquiles estabelece então uma trégua de 12 dias para os jogos entre os aqueus (vencedores) e, do lado de Tróia, para as honras fúnebres de Heitor, "domador de cavalos". O livro termina aí, momentos antes de Tróia ser tomada e depredada. Após o fim, Odisseu (Ulisses), que lutava ao lado de Aquiles e Agamemnon, levará ainda 10 anos para conseguir voltar para casa. Delineia-se a Odisséia, o outro grande (gigante) poema de Homero.
Febo Apolo flechicerteiro
Se há um motivo muito forte para ler a Ilíada, não é por que "sob certo ponto de vista, nenhum outro livro que se lhe tenha seguido conseguiu superá-lo”, como diz a contracapa da tradução de Frederico Lourenço.
A razão é bem bem mais simples: é o PRIMEIRO livro da história da literatura ocidental. É a causa primeva, que inicia algo que nunca aconteceria se não inciado e que nunca mais deixou de ser feito - a causa sem a qual não haveria efeito algum.
Além disso, milhões de expressões/séries/filmes/gibis/artigos/games e, obviamente, livros, fazem referências veladas ou não a acontecimentos/personagens do épico. Não dá pra ignorar a influência cruzando séculos em obras de arte variadas - de representações em vasos a blockbusters.
Em português, há diversas traduções. A recomendada pela Professora Giuliana Ragusa, do Departamento de Letras Clássicas, para a disciplina Poesia Épica: Homero, é a de Haroldo de Campos (seu início foi transcrito no começo do post).
Se lida em voz alta, variando-se o tom de voz, o ritmo+sonoridade parecem um melodioso canto feito para botar em transe. A que li começa assim:
“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
E tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
Ficando seus corpos como presa para cães e aves
De rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
Desde o momento em que primeiro se desentenderam
O Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.”
Esta é tradução de Frederico Lourenço, melodiosa e com rimas singelas, um pouco mais “fácil” do que a de Haroldo – que segundo a própria introdução do Professor Frederico, foi a que mais se aproximou do sopro homérico original, “a despeito de suas miríficas (admiráveis) excentricidades”. Quando lida em voz alta, parece mais pobre em termos sonoros que a de Haroldo – mas é prazerosa (nem sempre, ;)) de se ler no papel.
Acho que, para quem vai encarar os deuses e seus caprichos ou preferências pela primeira vez, a de Frederico Lourenço é mais adequada. E, se você não tem interesse em comprar um livro novo, pode acessar a tradução de Manuel Odorico Mendes aqui – ela está em domínio público. Não li, mas sei que é a mais difícil de ser lida, por sua estrutura sintática e neologismos.
As questões em torno da obra
São muitas questões suscitadas pela Ilíada. Existiu um Homero? E este teria composto a Odisséia? Ela era sempre foi escrita e lida ou era recitada por gerações consecutivas até que alguém fez um registro escrito? A guerra de tróia realmente existiu? De que tempo Homero fala?
Não responderei a nenhuma delas porque, afinal, eu tenho uma vida fora do computador. Mas sugiro que, se interessar, pode-se começar a investigá-las pelo básico - lendo a Wikipedia. Depois, o livro O Mundo de Homero, de Pierre Vidal-Naquet.
Ah, claro. Leia também a Ilíada.


