domingo, 7 de novembro de 2010
A Grécia antiga não me deixa em paz 2: Os trabalhos e os dias
"O Trabalho e os Dias", também de Hesíodo, deixa as estórias de sucessão e poder divinos para concentrar-se na explicação da condição humana - e expõe o que há de responsabilidade dos deuses nessa condição.
O livro pode ser divido em duas partes. A segunda trata de orientações de cultivo da terra; supõe-se que Hesíodo era um agricultor e cantava para agricultores, em oposição a Homero, que tinha poemas mais sofisticados e longos, e cantava para aristocratas urbanos.
A primeira parte tem pequenas estórias moralizantes e uma das estórias mais importantes da cultura ocidental, definidora da humanidade que se seguiria a ela - nascendo, comendo, sendo escravizada por suas fomes (alimentar e sexual), trabalhando, adoecendo e morrendo. Não vou comentar aqui sobre a estória das 5 raças de homens; recontarei a mais importante - obviamente, escolhida de forma arbitrária :).
Zeus e um Titã que gostava muito da humanidade, Prometeu (pro= antes; metis = visão), deviam partilhar um boi sacrificado para definir quais partes concerniam aos homens e quais, aos deuses.
Por sua predileção, Prometeu armou um embuste para Zeus, cobrindo as carnes e as banhas com a pele do estômago do boi e, assim, disfarçando a parte nobre da caça. Depois, ofereceu a Zeus os ossos revestidos de gordura, o que os fez parecer muito mais atraentes que o "estômago", apesar de não serem comestíveis.
Zeus, como era de se esperar do MAIOR dos seres viventes, ficou puto, e privou os homanos do fogo celestial (o relâmpago). Prometeu planejava e agia rápido, e roubou o fogo celestial de Zeus (escondido) para dá-lo aos homens, de forma que eles se aquecessem no frio, cozinhassem a carne ou iluminassem a noite.
Zeus, que lá do Olimpo dava um look pra miséria terrena (naquele momento, bem menos miserenta, pois a terra-nutriz tudo provia, sem necessidade de cultivo), vê um bando de vagabundo (uma palavra desprovida de significado à época, já que o trabalho inexistia) bêbado dançando ao redor da fogueira e pensa: raios! roubaram meu fogo!
Ele já sacava quem fora o espertinho, e ofereceu um presente ao irmão de Prometeu, Epimeteu. Prometeu já alertara seu irmão a nunca aceitar presente algum de Zeus, mas ele não se lembrou disso - pois Epimeteu é aquele que só vê depois que a merda aconteceu (epi = depois).
O presente de Zeus era irrecusável , para qualquer mortal ou titã: uma mulher com pele sedosa e cabelos de deusa, olhos de deusa, perfume de deusa e vestes de deusa, cada detalhe pensado por um deus olímpico. Ela trazia não uma caixa, mas um jarro, e quando da aceitação de Epimeteu, inclinou o jarro e fez fluir pela terra todos os males que a humanidade enfrenta desde sempre: envelhecimento, morte, doença e impulsos sexuais que escravizam o homem à sua própria mulher.
Ela foi a primeira de seu gênero.
Seu nome, Pandora.
Pandora em versão "Heavy Metal"
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Escreve que eu prometo não ler.