Este post é dedicado à parte ruim do livro, como já escrevi no post anterior. Sobre a parte boa, posto (bem) mais pra frente.
Teorias da Comunicação - Conceitos, escolas e tendências foi organizado por Vera Veiga França (Profa da UFMG, Luiz C. Martino (Prof da UnB) e Antonio Hohlfeldt (Prof. da PUC-RS). Todos eles são Professores Doutores em Comunicação, sendo que Vera e Luiz fizeram seu doutorado na França (Luiz tem 3 mestrados!), e Antonio, na PUC-RS.
O livro é estruturado em 2 partes: a primeira analisa a epistemologia e origens históricas do termo comunicação e da disciplina; a segunda, expõe as correntes de pensamento em comunicação, operando uma divisão essencialmente geográfica dos temas. Como só conheço as teorias da comunicação indiretamente - por meio de comentadores como o deste livro - não posso opinar se é uma escolha boa ou ruim.
O que posso dizer, com segurança, é que há um desnível abismal de qualidade entre alguns dos autores. Não seria uma tragédia se os piores capítulos não fossem de um dos organizadores - mas eles o são. Então, dedico este post ao que o livro tem de ruim – e depois, faço algo mais cuidadoso com o que tem de bom.
The bad thing
Antonio Hohlfeldt tem um lattes bonito e parece ser muito respeitado lá no sul em Porto Alegre. Seus textos dão impressão de ser um cara culto e, além disso, escreve sobre teorias da comunicação - o que é próximo celebrar uma missa com cada frase dita numa língua diferente (sociologia, ciências da linguagem, engenharia de telecomunicações, estudos culturais, psicanálise e outras).
O primeiro problema é justamente sua erudição: muitos trechos das histórias da Antiguidade Clássica, Europa medieval e moderna, brotam sem nexo com a argumentação sobre o fenômeno da comunicação midiatizada – parece que estão lá para mostrarem o quanto o autor é culto. O segundo parece ser um problema cognitivo: Antonio parte de premissas simplistas para chegar a conclusões simplórias. Às vezes, é tão confuso que nem se pode chamar seu texto de expositivo ou argumentativo ou ainda, discurso organizado.
Mas o problema mais grave de seus textos (evidência do que eu digo acima) é que há momentos em que ele parece uma criança escrevendo um trabalho de escola. Um trabalho de dezenas de páginas, é verdade, mas ainda assim, bobo. Vejamos:
“Os mais abastados e interessados passaram a financiar atividades culturais mais complexas, como a filosofia, tendo como hóspedes figuras como Sócrates ou Platão, a quem recebiam e com quem dialogavam e aprendiam.”
Como um cara que fez um pós-doc em Portugal, com bolsa da CAPES, pode escrever uma frase dessas? E ainda por cima dá a entender que Platão era financiado e não um dono de escravos e terras (este aqui é mais educado).
Enfim, por mais que eu forjasse, do vácuo, interesse pelos textos do Professor Antonio, sempre esbarrava num trecho como esse aí, até não agüentar mais e pular o capítulo. Para provar que não é birra contra o autor – que pode até ser bom professor – vai aí mais um trecho do texto, agora sobre a alegoria da caverna, no capítulo “As origens antigas: a comunicação e as civilizações”:
“Não obstante essa teoria, Platão foi um filósofo, fez discípulos (inclusive Aristóteles) e intuiu, quem sabe, a primeira sala de projeção cinematográfica da qual se tem notícia.”
Ainda explica confusamente esta gracinha constrangedora:
“Basta você visualizar a situação proposta por ele para entender o que quero dizer: os homens agrilhoados no fundo da caverna seriam os espectadores no interior da sala; a projeção das sombras, a partir da boca da caverna, produzidas por fora da luz que incide sobre elas, é o próprio princípio da iluminação projetada sobre o celulóide transparente que, graças ao jogo de lentes e ampliadores, projeta as imagens sobre a tela branca (...)”
Será que os alunos são burros e não conseguem imaginar as sombras só com uma explicação sóbria da alegoria, que é bonita e significativa por si? “Ah, mas cinema é comunicação – tem tudo a ver, meu!”
Eu poderia dar diversos exemplos (o primeiro texto do autor no livro começa com uma generalização bem medíocre), mas já perdi meu tempo aqui, para que você não perca seu tempo com os textos de Antonio Hohlfeldt do livro Teorias da Comunicação da Ed. Vozes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Escreve que eu prometo não ler.