quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O culto ao amador - Andrew Keen

"For me, the way to become a citizen is to learn about the world, and one does not learn about the world with self expression, one learns about the world from listening to experts"

"I'm a meritocrat. I believe that people that are skilled and worked hard to achieve things should be rewarded for that"


O nobre amador, esta figura que povoa a internet mais extensamente que a cana, Penápolis, é o alvo de Andrew Keen, historiador inglês e autor de uma polêmica contra a web 2.0.

Eu disse isso? Não, não tem nada a ver, o Keen mesmo é um empreendedor web.

A polêmica é contra os macacos por trás de milhões de blogs e verbetes da wikipedia, que transformam a web 2.0 numa fonte pouco confiável como referência de pesquisa escolar de 1o grau - imagine, entào, para pesquisa acadêmica ou jornalística.

As críticas de Andrew Keen não são direcionadas às tecnologias que a web 2.0 desenvolveu - as quais considera revolucionárias e libertárias, muitas delas -, mas ao seu uso por pessoas de referências intelectuais pobres e de parco (ou nulo) talento. São nobres amadores que publicam e escrevem, produzem música ruim e vídeos toscos, num volume tal que somos afogados numa enchente de tosquices não-intencionalmente toscas; quase sempre, sem conseguir atracarmo-nos a uma ilha de criatividade, talento e inteligência.

Não é só  isso: o compartilhamento de arquivos na internet (filmes e música) e notícia gratuita estão assassinando as gravadoras e a mídia tradicional. E ninguém ganha dinheiro com isso na internet - quem tem sonhos de ser compositor e ganhar a vida com canções terá uma vida muito muito mais dura daqui para frente, e construir uma carreira baseada nisso será improvável.

Andrew Keen fala que os empreendedores do Vale do Silício (da web 2.0) são evangelizadores anti-establishment. Parece que ele tem razão, quando vemos Jimmy Walles (fundador da Wikipedia) falar neste documentário, a partir do minuto 17, que "frequentemente, o garoto de 17 anos está certo e o professor (especialista) está errado". Ou então quando o mesmo Mr. Walles fala sobre Larry Sanger, co-fundador da Wikipedia, que saiu do projeto porque "He tends to be more old-fashioned, academic about all this thing". Ou seja, demonstra um desprezo atroz à dedicação ao estudo de um determinado assunto, quando provavelmente o que alimenta os postadores anônimos e compulsivos da Wikipedia são pesquisas destes cientistas "que muitas vezes estão errados".

A internet colaborativa: um maravilhoso mundo onde não há barreiras meritocráticas; anônimo, anti-elitista e igualitarista ao extremo. Bom? Um monte de pessoas que procurarão se fundamentar na Wikipedia, por exemplo, poderão "tomar decisões e acreditar em coisas que são opiniões imaturas, com verdades personalizadas" (são opiniões combinadas de Andrew Keen e Larry Sanger, no mesmo documentário).

Keen preocupa-se com o rumo da civilização democrática dentro deste paradigma libertário. Onde vão parar reportagens investigativas, sem dinheiro nem estrutura institucional para produzi-las - ou defender seus jornalistas produtores processados por poderosos?

Eu e amigos sempre tivemos o sonho de viver de música, mas percebemos que nenhuma nova banda independente razoavelmente conhecida (que toca pelo Brasil todo em festivais), consegue. É outro resultado da revolução digital, tratado por Mr. Keen no campo da pirataria digital - são pessoas que colocam seu esforço, dinheiro, tempo, energia, para produzir música e filmes e não conseguem viver disso, apesar da notoriedade online.

Acredito que Andrew tem razão sobre o uso das ferramentas online ser um problema ético e civilizacional, pois tira empregos e, em consequencia, a vida de muitas pessoas. Não pagamos mais por coisas que costumávamos pagar, e o dinheiro vai para onde?

Ele fala de muitos outros aspectos a revolução digital, como o caso do buscador da AOL que teve seus registros roubados e publicados na internet, acabando com a privacidade de diversas pessoas que postavam seus questionamentos mais íntimos por lá. O crescimento Big Bang e de estrutura monopolista do Google é tratado por Keen como resultado desse culto da inovação e da expressão pessoal do amador. E é para lá que vai o dinheiro drenado de outras indústrias: anúncios online direcionados a públicos muito específicos, rastreados por sotwares-robôs em nossos gmails e buscas na internet. Ou no Youtube, Facebook e Myspace.

No Brasil, acho que a possibilidade de publicar sua versão dos fatos ajuda muito os movimentos sociais sem voz na mídia tradicional - o que é comum, com os maiores jornais e revistas do país quase inteiramente voltados para um candidato ou com muitos veículos de mídia na mão de políticos. Nos EUA, é uma pena que NYtimes  perca cada vez mais assinantes pagantes e publicidade, (o que o faz cortar partes de seu staff), pois é um jornal muito bom.

Se você tiver muito interesse no assunto, encare este vídeo de 1h, que é o discurso de lançamento do livro no Google Author's. Caso queira ver mais sintetizado, assista abaixo um trecho de entrevista de Andrew Keen:



Aproveite e leia o New York Times na internet. É de graça, ;).

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Escreve que eu prometo não ler.